A p
arábola evangélica de hoje mostra a má vontade de uns lavradores que por avareza matam o filho do dono da vinha, filho em quem está figurado Cristo. A linha narrativa da parábola é clara por si mesma. Tratando de assinalar quem é quem na parábola, torna-se evidente que a vinha é Israel; o dono, Deus; os arrendatários, os chefes do povo judeu; os criados, os profetas; o filho morto, Jesus Cristo, e o castigo de justiça, para além da destruição de Jerusalém e do templo, a entrega da vinha a outros, isto é, a admissão das nações pagãs no reino de Deus.
A reação dos sumos sacerdotes e dos fariseus mostra já em ação o que Jesus pré-anuncia em parábola: “compreenderam que falavam deles; e embora procurassem deitar-lhe a mão, temeram as pessoas, que o tinham por profeta”. À medida que avançamos para a Páscoa, vai adquirindo relevo o mistério da morte e ressurreição de Cristo, o Filho de Deus feito homem.
A parábola dos vinhateiros homicidas é um compêndio da história da salvação humana por deus, desde a sua aliança com o povo eleito, Israel, até a fundação da Igreja por Jesus como novo povo de Deus, passando pelos profetas e o próprio Cristo, que anunciou o reino de Deus e foi constituído pedra angular de todo o plano salvador, mediante o seu mistério pascal de morte e ressurreição.
Nesta perspectiva histórico-salvífica há dois momentos altos que a parábola realça na redação de Mateus que hoje lemos: a) o filho do dono é arrastado da vinha e morto fora da mesma pelos arrendatários malvados e avarentos. Alusão manifesta à morte de Jesus no Gólgota, fora das muralhas de jerusalém. b) a menção final da pedra, primeiro rejeitada e logo convertida em pedra angular do edifício, segundo o salmo 118, foi uma passagem preferida pelo Novo testamento para se referir a Cristo, o Senhor ressuscitado e glorioso. Por isso é provável que este ponto seja uma edição posterior da comunidade, tradição consignada pelos três sinóticos.
A projeção eclesial é o segundo ponto culminante com que Mateus enriquece, com marcada intenção, à lição da parábola. Fiel ao seu objetivo catequético sobre o novo povo de Deus que é a comunidade cristã, enfatiza a missão da Igreja dentro do marco da história da salvação: “O Reino dos céus vos será tirado e será dado a um povo que produza frutos”. Desta forma desloca a atenção desde a imagem inicial da vinha até ao reino de Deus, que é confiado à Igreja. A vinha que começou representando Israel, conclui significado tanto o novo Israel, a Igreja, como o reino de Deus.
Na sua reflexão pascal a comunidade cristã primitiva entendeu a parábola como uma advertência de Cristo também para ela própria. Trata-se de um convite do Senhor a dar fruto segundo Deus, uma vez que se nos confiou a vinha, o Reino, para um serviço fiel e fecundo. A fé, o culto e a oração devem plasmar-se em frutos para não frustrar as esperanças que o Senhor pôs em nós nesta hora do mundo, um tempo de vindima e colheita de Deus.
A nossa eleição como povo consagrado a ele não deve ser motivo de orgulho puritano e estéril, mas de fértil responsabilidade cristã. É assim como devemos hoje aplicar-nos esta parábola para que a escritura seja eficaz em nós: com espírito de revisão e conversão quaresmal. Assim seremos um povo que produz fruto.